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Relatos mostram que é preciso debater e enfrentar a depressão e o suicídio

Os nomes utilizados nos relatos são fictícios para preservar a privacidade dos pacientes entrevistados.

Depressão e suicídio | Pexels
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Durante o século XIX e início do século XX o mal do século poderia ser a Tuberculose, seguida da AIDS. Voltando ainda mais no tempo, foram pandemias como a da peste que arrasaram populações de todo o mundo. Mas hoje a depressão é considerada o mal do século XXI, uma doença psicológica que atinge cerca de 300 milhões de pessoas no mundo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Texto publicado originalmente por alunos da Uespi.

A pandemia do Coronavírus poderia ter ganho esse título, se não tivesse contribuído ainda mais com o aumento dos casos de doenças e transtornos psicológicos, como a depressão e a ansiedade. Em novembro de 2020, o Ministério da Saúde divulgou dados preliminares de uma pesquisa que reuniu informações sobre a saúde mental do brasileiro durante a pandemia da Covid-19. Os resultados foram alarmantes 86,5% de pessoas com transtornos de ansiedade, 45,5% com sintomas de estresse pós-traumático e 16% com depressão. 

Crédito: Mariana Orlova/Pexels.

O psicólogo Wellington Santos diz que a pandemia afetou diretamente a todos, devido à mudança de rotina imposta de forma abrupta, onde tivemos que nos reinventar e nos adaptar. As dificuldades de adaptação acarretaram uma maior procura de atendimentos psicológicos e as demandas mais frequentes são casos de ansiedade, depressão e transtorno de personalidade, relacionado a adaptabilidade. Por muito tempo os problemas psicológicos eram tratados como mitos, superstições ou bobagens e até hoje, a saúde mental ainda carrega inúmeros estereótipos. 

Entretanto, avançamos na quebra de estigmas sobre o tema, principalmente com a criação do Setembro Amarelo, campanha que dedica um mês à prevenção do suicídio e abre oportunidades de debate sobre a temática. O fato é que 30 dias de conscientização não bastam em uma luta que precisa ter 365 dias sem cessar. “Esse cuidado da saúde mental deveria ser estimulado, debatido e divulgado com frequência, para estimular a sociedade a refletir pela necessidade das pessoas em buscarem ajuda quando fosse necessário”, afirma Eyder Mendes, coordenador de comunicação do Centro de Valorização da Vida em Teresina. O Centro de Valorização da Vida (CVV) é um grande aliado na prevenção ao suicídio, a partir de serviço voluntário e gratuito de apoio emocional sob total sigilo e anonimato. O serviço funciona 24 horas através do telefone 188 e do site www.cvv.org.br. 

A estudante Paula*, que procurou o serviço do CVV, afirma o quanto o canal é importante no apoio à saúde mental. “Eu estava em casa, assistindo TV, quando passou um comercial do CVV. Lá eles falavam sobre a importância de cuidar da saúde mental, e através daquele comercial eu pensei que talvez isso poderia me ajudar. Peguei o telefone e liguei pra eles, desesperada mesmo, porque meu grau de depressão já estava muito avançado, já tava com aquele pensamento de se suicidar mesmo. E eles conversaram comigo e me senti tão bem que comecei a ligar várias vezes e isso me ajudou e recomendo pra todo mundo”, conta.

Como enfrentar a depressão?

O psicólogo explica que a depressão afeta e compromete diretamente a qualidade de vida do paciente e, dependendo do grau de adoecimento, a pessoa chega a perder a capacidade de realizar tarefas que antes eram comuns. “O ideal é procurar ajuda profissional com psiquiatra ou psicólogo, pois é o direcionamento correto para iniciar o tratamento clínico, seja medicamentoso, psicoterapeutico ou os dois. No entanto, qualquer pessoa pode ajudar, observando o comportamento da pessoa”, diz Wellington. 

De acordo com o especialista, sinais como isolamento social, tristeza profunda e aparente, embotamento afetivo, perda do prazer pelas coisas que fazia antes, baixa libido, insônia frequente, choro fácil sem motivo aparente, falta de apetite, falas sobre deixar de existir ou de inutilidade, perda de peso e falta de cuidados pessoais são algumas características de alguém que não está bem do ponto de vista psicológico. “Ao identificar esses sinais, você pode ser parte da rede de apoio ajudando a observar o comportamento da pessoa e incentivar a busca de ajuda profissional. É importante manter todos ao redor dessa pessoa em alerta para também observar e apoiar, visto que a pessoa não está bem e poderá desenvolver um quadro mais grave de adoecimento mental”. 

Felipe* tem 20 anos e foi diagnosticado com depressão aos 16, uma depressão mista, com síndrome do pânico e ansiedade. “Uma das coisas que eu considerava mais difíceis, na época, era aceitação. Reconhecer que eu precisava ir ao médico, de que era uma doença e que precisaria de tratamento”. Assim como o dono desse relato, muitas pessoas sentiram ou sentem esses mesmo sentimentos causados por uma depressão. 

Por trás desse nome fictício tem uma pessoa real que nos conta os desafios de lidar com essa doença, e após já ter chegado a atentar contra a própria vida, hoje, felizmente, ele está na estatística da superação. Ele conta que foi um processo muito difícil, onde diversas vezes duvidou da sua capacidade de enfrentar as crises. Também relata que passou por diversos profissionais e que muitas vezes perdia o controle de si. 

Atualmente, a depressão e a síndrome do pânico estão controladas. “Hoje tenho ansiedade moderada, conviverei com ela talvez para o resto da minha vida, mas é algo que eu consigo controlar, eu sei os meios de controlar. Depressão não é fácil, deixa marcas e é algo que todo dia a gente precisa se convencer que é preciso lutar, que é preciso seguir em frente”, afirma. 

De acordo com dados da OMS, 5,8% da população brasileira sofre com a doença, colocando o Brasil como o segundo país das Américas com maior número de pessoas depressivas, atrás apenas dos Estados Unidos, com 5,9%. Isso equivale a cerca de 12,2 milhões de Paulas e Felipes no Brasil. Nos casos de ansiedade ficamos em primeiro lugar. “Os motivos podem ser diversos e necessitam de uma análise detalhada de cada caso, pode ter um gatilho, um fato que gerou um grande sofrimento, como também podem haver aspectos genéticos, relacionados à hereditariedade”, conclui Wellington.

Evitando o suicídio

Estudos mostram que pessoas diagnosticadas com depressão são mais suscetíveis a apresentar pensamentos suicidas ou até mesmo concretizar o ato. “Eu nunca tive muito acesso sobre esse assunto. Eu ficava assustada, na época que descobri a gente não tinha tantas informações como hoje, por isso tive muita dificuldade pra entender [o diagnóstico]. Tudo começou a se agravar de uma maneira que eu já tinha chegado ao meu limite”, Paula relata, sobre os pensamentos de tirar a própria vida.

Felipe também conta como se sentia nesses momentos. “As primeiras crises eram simples, só era umas vontades, normalmente de às vezes sumir, um desejo de ficar isolado. No início da minha depressão real eu tive várias crises e tentativas, foram duas em um dia. Nesse dia a médica alertou minha mãe que eu deveria procurar um psicólogo. As crises eram muito fortes, eu queria sair correndo de dentro de casa, subir o morro e queria sair nem que fosse forçado. Era muito forte, que às vezes eu perdia até mesmo o controle de mim”. 

Assim como Paula e Felipe, esses pacientes necessitam de atenção e amparo, por isso Wellington Santos reafirma a importância do acompanhamento para evitar que a evolução da depressão leve ao suicídio. “Se faz necessário uma rede de apoio de amigos, familiares e a ajuda profissional especializada com psicólogo, psiquiatra e outras especialidades quando for o caso”. 

Caso o ato seja concretizado, o apoio à família é imprescindível. “A elaboração do luto por suicídio sempre é mais doloroso devido o modo como a morte ocorreu afetando toda família e amigos, e em alguns casos há a necessidade de ajuda profissional para superar as fases do luto, que são a negação, raiva, negociação, depressão e aceitação até a pessoa voltar a sua condição de vida plena não esquecendo o ocorrido, mas aprendendo a viver sem a pessoa. É importante nos casos de suicídio entendermos que a pessoa não queria deixar de viver mas sim acabar com a dor psíquica que estava lhe causando dor e sofrimento”, enfatiza o especialista. 

O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), em levantamento feito de 2010 à 2017, mostra que a média brasileira é de 5,6 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes. O Piauí apresenta quase o dobro desta taxa, atingindo uma média de 10 mortes. Em 2019, a taxa de suicídios a cada 100 mil habitantes aumentou 7% no Brasil, ao contrário do índice mundial, que caiu 9,8%, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados mostram ainda um longo caminho no enfrentamento a esse problema de saúde pública.



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